Igrejas convertidas em Québec

Passando alguns dias em Québec por conta de uma conferência que o Oriel foi participar, encontramos sem querer pelas ruas algumas belas igrejas que perderam sua função e que ganharam outras utilidades.

Umas delas é a biblioteca Saint Jean-Baptiste.

fachada-igreja

Esta antiga igreja anglicana, chamada Saint Matthew, foi transformada em biblioteca em 1979.

igreja-dentro

Ela representa o estilo de arquitetura inglesa em Québec, com inspiração neo-gótica, foi construída no fim do século XIX.

corredor-igreja

Ao redor da biblioteca se encontra o primeiro cemitério protestante de Québec, que foi transformado em parque urbano em 1980.

parque-cemiterio Saint-Coeur-de-Marie é uma outra igreja que encerrou seus cultos em 1997, depois de uma fusão com outra igreja localizada na mesma rua.

igreja-3Porém ela ainda não ganhou uma nova função definitiva. Atualmente um bazar foi instalado, mas acredito que será temporário.

igreja-2Sendo uma igreja no estilo neo-bizantino contruída entre 1919 e 1922, tem sido tema de debates na cidade quanto ao seu futuro, já que perdeu a função religiosa há muitos anos. Já pensaram mesmo em demolí-la, pois estava abandonada e os custos de reformas são muito caros.

igreja-1Mas parece que ela foi comprada há pouco tempo por uma imobiliária e existe alguns projetos querendo transformá-la em loja de luxo. O que iria agradar a burguesia local pois o quarteirão é rodeado por grandes hotéis e restaurantes chiques.
st-rochNo bairro Saint Roch, na baixa cidade, um dos bairros mais interessantes da cidade de Québec, uma parte da igreja Saint Roch foi transformada em boutique de moda para os criadores locais. Na foto se vê as duas torresinhas da igreja.

La Maison de la littérature é outra igreja convertida localizada na cidade velha, mas que eu não pude visitar pois estava em reformas. Esta igreja foi a primeira no estilo neo-gótico de Québec, construída em 1848, era chamada de templo Wesley. Perdeu sua função na década de 30. La Maison de la littérature foi inaugurada em outubro de 2015 sendo um centro cultural que reúne bibliotéca pública, exposições, ateliers e studio de criação.

Mas pelo que pude entender sobre as igrejas convertidas da província de Québec (cerca de 300 igrejas convertidas desdo início do século XX) , a grande quantidade não se dá a um afastamento da religião maior do que nos outros países. Mas é que se tem investido há anos no patrimônio cultural e religioso, e dar uma nova função pra esses espaços é uma forma de conservá-los como patrimônio.

Situação das igrejas em converção no Québec http://journalmetro.com/actualites/national/419174/ces-eglises-qui-changent-de-vocation/

Bibliothèque Saint Jean Baptiste https://fr.wikipedia.org/wiki/Saint-Jean-Baptiste_%28quartier%29

Église St Coeur de Marie http://claudeyvonne.blogspot.fr/2011/01/eglise-saint-coeur-de-marie.html

Boutique de criadores em St Roch http://www.signaturesquebecoises.com/

Maison de la littérature http://www.maisondelalitterature.qc.ca/maisonlitterature/mlitterature.php
video http://www.lafabriqueculturelle.tv/capsules/5928/les-portes-de-la-maison-de-la-litterature-enfin-ouvertes

O parque abandonado de Berlin

No leste de Berlin, próximo ao rio Spree, hoje restam as ruínas do único parque de diversões permanente que existiu na região berlinense. Criado durante a Guerra Fria, o parque Kulturpark Plänterwald (1969-1989) ficava situado na Alemanha Oriental (DDR) operado pelo poder público. Após a queda do muro e a reunificação o parque foi passado para uma empresa que renovou as atrações e passou a operar o parque com o nome de Spreepark. Mas com o acúmulo de dívidas a falência veio em 2001. Desde então os brinquedos foram abandonados e tomado pela floresta.
O parque abandonado passou a ser frequentado por curiosos e após um incêndio em 2014 que destruiu boa parte da estrutura o acesso ao local está totalmente proibido.

IMG_5539

O lugar é misterioso e mágico. A roda gigante não para de girar lentamente com a ajuda do vento, ao mesmo tempo provoca um ruído criando um clima assombroso.
Como a gente é meio fora da lei, acabamos invadindo a area a partir de um buraco na cerca feita por outros invasores.
Há riscos de encontrar seguranças lá dentro. A dica é ser discreto fazendo o tour por meio do mato, evitando as estradas principais.

IMG_5535 IMG_5550 IMG_5533 IMG_5552 IMG_5545

mais fotos

rolê veg na alemanha

Na última semana estivemos em Berlin para reencontrar alguns amigos e visitar o país pela primeira vez. Neste rolê ficamos surpreendidos o quão prático é ser vegetariano nessa cidade. Praticamente qualquer restaurante serve pelo menos uma opção vegana, além dos vários estabelecimentos 100% vegan.

Ficamos realmente impressionados, pois estamos há quase 3 anos vivendo na França, país cheio de tradições e muito orgulhoso de sua gastronomia fortemente baseada em produtos de origem animal. Então chegar em um lugar onde você não precisa modificar o cardápio ou explicar o que é ter uma alimentação restrita é muito agradável, é como se sentir em casa. Aqui na França temos pouquíssimos amigos vegetarianos, e vegans são raros.

Não sei se Berlin é uma exceção no país, mas parece que a Alemanha é o segundo país da Europa com maior número de vegetarianos, chegando a quase 9% da população (mais ou menos como no Brasil), enquanto na França não chega nem a 2%.

Mas então, vou fazer um breve relato do nosso rolê gastronômico nesse país. E pra começar, estamos na primavera aqui. Os dias ensolarados e a temperatura agradável faz as pessoas quererem passar mais tempo ao ar livre. Os parques ficam cheios de gente e especialmente nos bairros de população imigrante, como Kreuzberg e Neukölln, rola altas farofagem.


IMG_5433

IMG_5434Foi então a ideia da farofagem que nos caiu melhor pra gente. Passamos num mercado qualquer e não faltava opção de rangos vegan. Nos instalamos num parque do bairro Neukölln juntos com os turcos. Saladinha temperada, espetinhos de tofu defumado, champignon paris, abobrinha e cebola, hamburguers e bolinhas de “carne” gluten free e pão de alho. O clima era tão familiar e amigável que os turcos do nosso lado nos deixaram sua grelha pra ajudar a assar nosso rango mais rápido.

IMG_5444

Nos outros dias fomos em alguns restaurantes. Um deles foi o Tutti, restaurante vegan/vegetariano de cozinha sudanesa, no estilo falafel mas com pratos realmente bem preparados. Depois, indo mais pro “junkie food”, fomos em uma hamburgueria com opções vegan/vegetariana, mas não lembro o nome. De qualquer forma tem várias por lá.
Agora outro lugar que surpreendeu foi a pizzaria vegan Sfizy Veg com uma grande variedade de sabores, alguns bem exóticos.

IMG_5576

IMG_5557A Alemanha também tem a primeira rede de mercado 100% vegan, a Veganz. Lá tem de tudo, incluindo coisas bem bizarras como simulação de perú assado inteiro, camarão, etc.

IMG_5560

Os mercados Veganz geralmente têm outros estabelecimentos anexados, como lojas de calçados, restaurantes e cafeteria, como a Goodies, que foi onde a gente lanchou em Leipzig.

IMG_5577

Ainda em Leipzig, andando pelas ruas encontramos um kebab alternativo completamente vegetariano, o Vöner. Frequentado pela galera punk, rolando música alta num clima convivial.

IMG_5598

IMG_5601

Bom, isso foi o principal que a gente conheceu e eu consegui registrar de todo o rolê gastronômico :P
Mas é quase nada comparado a quantidade de lugares desse gênero vegan e alternativo que tem por essas bandas. Seria necessário ficar um bom tempo pra descobrir de verdade.

Titre de séjour ou Autorização de residência

Nous sommes tous en “transit” permanent. Qu’un homme soit blanc, noir, jaune, peu importe. Il est de toute façon un être potentiellement “exilé”

titre de séjour

Obra de Barthélémy Toguo, exposta no Musée de l’histoire de l’immigration em Paris

“Estamos todos em ‘trânsito’ permanente. Que um homem seja branco, negro, amarelo, pouco importa. Ele é, de qualquer maneira, um ser potencialmente ‘exilado'”, são as palavras de Barthélémy Toguo, o autor da instalação acima. Quem já tentou viver em um país estrangeiro se identificará facilmente com a imagem. Entre folhas de passaporte, carimbos e selos fiscais, o sentimento de insegurança sobre um futuro que fica sempre a mercê da decisão das autoridades.

Já fazem mais de 2 anos que pisei por aqui pela primeira vez. E foi depois de 1 ano que consegui um status que me desse o direito à um documento para trabalhar. Agora, depois de 10 meses esperando, tenho o tal documento em mãos, mas ele vence em dois meses. Então lá vou eu de novo agendar mais uma reunião pra pedir a renovação do documento. Mais tempo, stress e dinheiro. Parece que a ideia é nos fazer lembrar sempre que a gente não passa de imigrantes, ou seres potencialmente exilados, como diria Toguo.

ah o Mediterrâneo… sempre salvando nosso verão.

O verão está quase acabando na europa, e finalmente conseguimos tirar duas semanas de férias neste mês de agosto.

Porém aproveitar o verão no oeste da França não é fácil. A Bretagne é o estado da França com a maior faixa litorânea, cercado por água no norte, sul, e oeste. Seria o lugar perfeito para curtir uma praia. O problema é que o clima não ajuda nada.Durante o verão são raros os dias que a temperatura passa os 25 graus, além das águas geladas e dos ventos. Tolerável pra quem vive aqui, mas não pra gente que fica na espera de um verão tropical.

Solução mais próxima: sul da França, mas nada melhor que conhecer um país novo. Então, um pouquinho mais abaixo chegamos à Catalunya!

Mais de 1000 km pela frente, a ideia foi fazer a viagem por partes. Mas programar viagem encima da hora sai caro. Também não tínhamos tempo suficiente pra nos aventurar pedindo carona na estrada. A opção mais em conta nessas horas é a “covoiturage” (carona paga). Tem um site onde a galera que viaja de carro anuncia as vagas que tem em seus carros, elas propõe um trajeto e quem se interessa reserva, e marca um lugar de “embarque” e “desembarque”. E funciona mesmo encima da hora.

De malas feitas, saímos de Rennes meia noite. Dormimos a noite inteira no carro e chegamos perto das 8h00 em Narbonne, no sul da França. Nossa próxima carona ia sair de lá as 18h00. Tínhamos 1 dia para um rolê na cidade.

Catedral que nunca foi acabada. Em estilo gótico, começou a ser construída no século XIII.

Catedral que nunca foi acabada. Em estilo gótico, começou a ser construída no século XIII.

Dando uma volta pelo centro, conhecemos a cidade rapidamente. Ainda assim, o tempo era apertado, e pegamos um ônibus para ver a praia. Nada de muito especial e nem estava quente o bastante para querer entrar na água. Partimos então para Barcelona. Nosso sonho de verão.

Chegamos em Barcelona umas 21h00 e passamos a primeira noite no albergue de jovens. No dia seguinte demos umas voltas sem rumo pela cidade antes de ir para o acampamento na cidade vizinha de Gavà.

Nem preciso dizer que a cidade é linda, só a praia do centro mesmo que não é das melhores, no estilo praia urbana. Não é a toa que escolhemos um acampamento de frente pro mar, pelas redondezas de Barcelona. Enfim, terminando o dia, fomos pra Gavà. Chegamos no acampamento já de noite, e na escuridão ficamos um bom tempo quebrando a cabeça até conseguir montar nossa barraca. Abaixo, registro pós momento tenso.

Longe da cidade, sem computador, sem celular (até pq o do ori foi roubado lá haha), resumindo, só com o básico, tudo pra poder relaxar.

IMG_3713ccc cópia

Ah e que gostosos foram esses dias, dormindo juntinhos na barrada, abrindo ela demanhã e vendo o sol brilhar acima das árvores, indo pra praia e tomando uma cervejinha gelada na areia.

Bom, mas uma hora a gente tinha que lembrar que estávamos do lado de Barcelona e que era hora de um rolê urbano.

Continuando à toa pelas rua de Barcelona, sem querer esbarramos num restaurante vegan, o Veggie Garden. Não pensamos duas vezes e acabamos almoçando ali mesmo, entrada+prato+sobremesa+vinho saiu por € 8,50. Nada mal. E depois, mais umas voltas pelo bairro gótico, não entramos em quase nenhum ponto turístico, pois tudo era pago e caro. No fim da tarde subimos o morrão do bairro Gràcia, um dos mais legais de Barcelona, pra então chegar no parque Güell, mais um pico pra turista rico. Soube que antes as paradas não eram pagas, e não sei porque agora tá rolando isso. Por todas as entradas do parque era possível ver mensagens de boicote ao local, que antes era aberto à todos e agora só serve à uma pequena parcela burguesa. Do alto do morro, a vista da cidade. Encostado ao morro o teto de um squat representando a resistência local.

De volta ao nosso cantinho calmo, no dia seguinte fomos pro centrinho da cidade de Gavà. Batemos um rango numa lanchonete de empadas artesanais. Não deu pra resistir quando passei em frente e vi o senhor amassando a massa fresquinha. Pra terminar o dia, mais praia!

Último dia em Barcelona foi ao lado de uma agradável companhia. A Giulia foi uma colega de faculdade que está vivendo em Barcelona no momento. Nos levou pra comer tapas deliciosas, dar rolezinho no parque da Ciutadella, passando na praia de barceloneta e terminando no bairro Gràcia, a parte mais surpreendente do dia. Tivemos a sorte de estar lá bem no final de semana que começa a Festa Major, a festa popular mais importante de Barcelona e que acontece pelas ruas do bairro. Porém, tivemos o azar de partir bem na véspera da festa que inicia oficialmente 15 de agosto, feriado religioso. Ao menos, pudemos ter um gostinho do que acontece durante a festa. Todo ano as ruas são decoradas com materiais reciclados pelos próprios moradores, conseguimos ver algumas montagens e o pessoal trabalhando super empenhados. Na sorte ainda conseguimos ver uma demonstração de Castells, o castelo humano, que é uma manifestação bem tradicional na Catalunya.

Por fim, às 4 da manhã pegamos nossa penúltima carona de volta pra casa, chegando meio dia em La Rochelle (sudoeste da França), onde passamos uma noite na casa de nosso amigo Ruy. Cidade portuária e muito bonita, mas totalmente lotada de turistas. Ainda quero voltar lá pra curtir as paisagens.

Enfim, as férias acabaram e agora de volta ao trabalho.

nossos pratos

Só pra não perder o costume, deixo aqui mais algumas ideias de pratos.

O primeiro é clássico aqui em casa. Arroz, purê de batata, farofa de farinha de mandioca com alho refogado, e champignon paris picado e refogado na cebola e shoyu.

pure-farofa-champs

Segunda opção, não tão clássica. Vagem com pimentão vermelho refogados com alho, batata ralada e cebola assados no forno, champignon paris inteiro também assado no forno, e o substituto do arroz: grãos de “sarrasin” com avelã.

mistureba-vagem

Boa inspiração!

sobre menstruação e contracepção

As dúvidas em relação a contracepção percorrem boa parte da nossa vida, e o acesso à informação durante nossa adolescência, e mesmo na vida adulta, ainda é limitado. Por isso nunca é tarde ou demais falar sobre esse tema, e mesmo relatar nossas experiências, compartilhar nossas descobertas e dúvidas. Bom, é isso que venho fazer aqui neste momento.

 

A primeira menstruação e o início da adolescência são os primeiros eventos que levam as meninas na nossa sociedade a pensarem sobre o primeiro método contraceptivo. As razões podem ser várias, mas as mais frequentes são excesso de espinhas, efeitos da TPM, cólicas fortes, menstruação desregulada, início da vida sexual, cisto no ovário, etc. No meu caso menstruei aos 11, e aos 16 anos o motivo para tomar a pílula anticoncepcional foi o início de namoro. Em agosto de 2013, passados 7 anos, com 24 anos e em um relacionamento de 8 anos, eu decidi parar. Nesta época eu já estava casada, mas a finalidade não foi a de engravidar. Eu decidi dar um tempo com os medicamentos e perceber as respostas do meu corpo. É claro que estar em um relacionamento sólido me deu mais segurança para me aventurar neste experimento sem que seus riscos abalassem a minha nem a nossa vida. Além do mais, eu estava na França, especificamente na região da Bretagne, onde o suporte a questão do aborto funciona muito bem.

contraceptivos-comuns

Entre os métodos de contracepção mais comuns, a camisinha nunca esteve muito presente em nossa relação, por diversas razões como ser desconfortável, cortar o clima, ser anti-ecológico, etc. Fizemos os exames de DST logo no início da relação e acabamos abandonando a camisinha de vez. Assim, por ser mais acessível, a pílula acabou sendo o nosso principal método contraceptivo. Ela nunca falhou. Mas também não tenho muitas lembrança das mudanças que ela causou no meu corpo. Lembro de menstruar por, em média, 10 dias e após a pílula os dias reduzirem para 5. Mesmo não sentindo muitos efeitos colaterais, nunca me senti totalmente confortável ingerindo esse medicamento que passou a controlar totalmente meu ciclo menstrual, e com o passar dos anos cada vez mais as dúvidas vinham a minha cabeça, e me perguntava “até quando vou continuar dependendo disso?”, considerando que eu ainda teria mais uns 20 anos de ciclos menstruais pela frente.

A mulher em segundo plano

Bom, sabemos que o direito e acesso aos métodos contraceptivos, e frequentemente à pílula, são há muito tempo reivindicações de grupos feministas, fazendo também parte das políticas de esquerda que defendem a liberdade sexual da mulher. O fato é que eu também defendo essa liberdade, mas então por que estou tentando descartar um direito que me foi conquistado?

Segundo Diniz, no Brasil da década de 80 a discussão sobre contracepção se dividia entre os natalistas e os antinatalistas. Os primeiros eram contrários à toda oferta de contraceptivos por não corresponder aos interesses nacionais e à fé cristã. Os últimos, preocupados com os efeitos do crescimento populacional no desenvolvimento econômico, defendiam a regulação da fecundidade e acabavam depositando na mulher essa responsabilidade, sem considerar os riscos para a sua saúde e seu bem-estar.

Como abordado pela mesma autora, a falta de reflexão sobre a prática médica convencional nos leva a ignorar o papel dos serviços de saúde na subordinação das mulheres. A ideia de planejamento familiar nos faz crer que a função da sexualidade da mulher é constituir família, não reconhecendo o sentido amplo da busca por contracepção, como cuidar da sexualidade tendo em vista o prazer. Como consequência, temos serviços de saúde que não oferecem auxílio adequado às mulheres que não possuem um parceiro fixo, falhando na oferta de métodos e aconselhamentos sobre prevenção de DSTs, por exemplo. Aliás, foi apenas em 1997 que o Brasil começou a comercializar preservativos femininos, e ainda assim, com preços bem elevados. Mais de uma década depois, ainda vemos uma grande dificuldade de acesso a esses preservativos, mesmo sabendo que ele é muito mais eficaz que o preservativo masculino.

Há algo em comum entre as situações discutidas acima. A mulher pouco aparece como agente capaz de decidir sobre os cuidados e as funções do seu próprio corpo. O tabu do corpo da mulher persiste e a afasta de sua autonomia. Por vezes a igreja, por outras o estado. E nossas famílias e os próprios médicos acabam sendo cúmplices do controle sobre nossos corpos. É impossível não pensar no grande papel de manipulação da industria, do capitalismo. O direito a contracepção foi sim uma grande conquista feminista, mas parece que parou aí. Aonde ficou nossa saúde nessa história? Acabamos nos deixando levar pela sociedade de consumo. A mulher independente se tornou aquela que tem poder de aquisição. E a liberdade se tornou a praticidade de não precisar menstruar, de não exalar cheiros naturais, não precisar ter contato com o próprio sangue, de esquecer que temos um ciclo menstrual, e depois poder reativá-lo quando desejarmos.

“if you think you are emancipated, you might consider the idea of tasting your own menstrual blood – if it makes you sick, you’ve a long way to go, baby” Germaine Greer

 

À procura do método

Bom, essas foram algumas das razões pelas quais decidi parar e repensar sobre o que tenho feito com meu corpo. Razões essas que ainda me fazem questionar se me conheço o suficiente, se estou cuidando de mim, se existem outras soluções para mim e para as outras mulheres. Quando pensamos em métodos de contracepção sem uso de medicamentos, geralmente somos instruídos às seguintes opções, começando pelas que oferecem menos riscos de gravidez: 

  • preservativo feminino ou masculino (sendo o único método confiável contra DSTs)
  • o diafragma (um dos que mais oferece autonomia à mulher, podendo ainda proteger contra algumas DSTs)
  • as práticas sexuais não penetrativas 
  • o coito interrompido 
o primeiro teste

Pensando sobre qual método eu iria optar, decidi testar alguns. Eles deveriam estar ao meu alcance e era importante para mim ter opções mais naturais. Foi nessa que o primeiro escolhido foi o tal do “coito interrompido”, ou ejaculação fora da vagina. A eficácia desse método pode depender de alguns atributos, como o controle do parceiro sobre a própria ejaculação. 

Mas em primeiro lugar vou comentar sobre como minha vida mudou desde que parei com a pílula. Os efeitos podem parecer negativos para a maioria das mulheres. Mas na realidade eram os efeitos que eu esperava. São as respostas naturais de um corpo se libertando.

Em relação ao meu corpo, houve um grande aumento de espinhas, principalmente nas costas e peito. Foi mais intenso nos primeiros meses e depois foi reduzindo. Meus seios perderam um pouco de volume. Em alguns meses tive uma sensação de que o corpo inteiro estaria menos inchado. Voltei também a sentir cólicas nos dias de menstruação. Além disso, no início meu ciclo desregulou totalmente e cheguei a achar que estava grávida por ficar uns dois meses sem menstruar. Porém, depois de alguns meses meu ciclo foi se regulando e descobri que meu ciclo tem em média 45 dias, e não 28 dias como a pílula me forçava a ter. Além do mais, a menstruação era sempre interrompida para recomeçar um novo ciclo.

Em relação a rotina e preocupações, é prático não precisar pensar em comprar ou conseguir as pílulas anticoncepcionais, nem lembrar de toma-las todos os dias. Na realidade o método atual transfere a responsabilidade ao parceiro homem, pois é ele quem tem que ser capaz de controlar a ejaculação e saber a hora certa de retirar. Além disso, após a primeira ejaculação, o ideal é não penetrar sem preservativo novamente no mesmo dia, para eficácia do método.

Bom, tem um ano desde começamos a aplicar o método que até o momento tem funcionado bem. Ele tem fama de não ser confiável, e mesmo eu querendo, não posso recomendá-lo, pois a minha experiência não é o bastante. Porém, mesmo estando contente em ter parado com as pílulas e de confirmar que esse método é possível com a gente, não pretendo continuar (apenas) com ele. Posso levantar como pontos negativos o fato de padronizar o fim da transa, e ainda de não permitir um conhecimento maior da mulher sobre seu corpo, o que faz com que permaneça um sentimento de insegurança sobre possíveis gravidez.

Mas não vou parar por aí, o próximo passo é testar um outro método, ainda diferente dos que citei acima. Ainda não posso expor o que será, então vai ficar para um próximo post. E pra quem tiver lido o texto até aqui, gostaria de saber a sua opinião sobre o tema. Quem tiver outras experiências, fiquem livres pra comentar.

Referências

DINIZ, Simone G. – Cuidando do prazer: do planejamento familiar à contracepção, e da autonomia das mulheres à responsabilidade compartilhada. 

El dedo en la llaga – El estigma histórico de la menstruación

 

De Rennes à Bécherel à vélo

     Depois de um domingo chuvoso, acordamos na segunda de páscoa com vontade de aproveitar o último dia do feriadão. Já era nosso plano dar um rolê de bici em uma outra cidade. Se tivesse feito bom tempo no domingo teríamos tentado ir pra Dinan, contornando o rio Vilaine. Porém num bate e volta a gente não poderia ir muito longe. Foi então que pesquisando um pouco na internet, enquanto tomávamos café, encontrei nosso destino: Bécherel! Mal conhecia a cidade, só havia visto divulgação aqui em Rennes de uma tal “festa do livro” que estava rolando lá neste final de semana. Bom, 32km de trajeto de bicicleta no googlemaps. Nada mal para conhecer um pouquinho melhor nosso departamento (Ille-et-Vilaine). Não conhecíamos as estradas, nem as cidades que iríamos passar. Pegamos só o GPS do celular e fomos ver no que ia dar.

Rota traçada:
Saindo de Rennes pela Bd de la Robiquette > Montgermont > (Route du Meuble) Chapelle-des-Fougeretz > Montgerval > Gévezé > Langouet > Miniac-sous-Bécherel > Bécherel

      O caminho até Chapelle-des-Fougeretz foi bem tranquilo, todo com ciclofaixa. Esta primeira cidade foi uma surpresa agradável. Super pequena, mas muito simpática.

Chapelle-Ftz

Dando uma volta por dentro da cidade, encontramos ainda um jardim marroquino.

jardin-maroc

      Depois pegamos o caminho para Gévezé passando por Montgerval. Nada de muito interessante nessas duas cidades. Porém, é bom avisar que esse caminho até Langouet não foi muito agradável. Falta via segura para ciclistas, sendo que em uma grande parte não tem nem acostamento na estrada.
Pelo menos, depois de Langouet veio a melhor parte do trajeto. O caminho atravessa toda a área rural, passando por alguns pequenos vilarejos e fazendas. É uma estradinha asfaltada que só dá passagem pra um veículo. Foi a parte mais segura de toda a viagem, pois o volume do tráfego é muito baixo.

miniac-centre

       Miniac-sous-Bécherel foi a última cidade antes de chegar ao destino final. Também é híper pequena, mas bem bonitinha.

manoir-verger

Manoir du Verger, século XVII. Casa de um senhor feudal aí.

      Um pouquinho mais adiante e já podíamos avistar Bécherel. A gente nem sabia que a cidade ficava em cima de uma colina. Foi uma outra surpresa ver essa paisagem.

miniac-becherel

Enfim, chegamos, pelos fundos da cidade. Pausa pro lanche e descanso antes de subir a colina.

etang-becherel

      Então chegamos na cidade dos livros. A cidade com pouco mais de 700 habitantes concentra dezenas de livrarias, artistas e artesãos do livro. Durante a “fête du livre” as ruas ficam cheias de bancas e atividades culturais. E conferências são realizadas na “Cité du Livre”, primeiro estabelecimento público dedicado ao livro na França.

fete-du-livre

      Porém, essa tendência literária é bem recente. A cidade é um antigo forte que durante a idade média foi ocupada pelos ingleses por sua localização estratégica. Entre o século XVI e XVIII, principalmente após a Revolução Francesa, a cidade se tornou uma grande produtora de linho e cânhamo. Mas com a chegada do algodão na França, a produção de tecido em Bécherel enfraqueceu. Bom, depois veio as usinas de couro, sapato e máquinas agrícolas e mais tarde a produção leiteira. Mas foi só com a chegada do caminho de ferro ligando a cidade à Rennes que a região se desenvolveu. E foi com o reconhecimento em 1978 de “pequena cidade caractere” da França que incentivou diversas livrarias e artesãos a se instalar na cidade.

cite-du livre

Para finalizar, mais alguns detalhes sobre a viagem.
A ida durou quase 5 horas. Vale lembrar que é uma região mais alta e que fomos parando em todas as cidades que passamos.
A volta durou 1h50. Sabendo já o caminho, sem parar nas cidades e descendo bastante até Rennes.

vagina pulsante

movimenta. pulsa. transforma.
Nossas vaginas estão cheias de vida.

IMG_2226

Vagina em feltro costurada a mão (jan/2014)
[o sangue]

buceta-sangre

[o gozo]

gif-gozo

viva a vagina pulsante


Penso que o feltro é um material frequentemente utilizado no artesanato pra produzir coisas fofas. Já a vagina, de forma geral, é vista como algo sujo (tanto no sentido menstrual, como sexual). Desta forma, produzir uma vagina em feltro é colocar dois elementos com sentidos distantes, e mesmo contrários, num mesmo objeto. A intenção não é de inverter os conceitos, mas observar-los em uma outra perspectiva. A aplicação em gifs também faz a combinação do artesanal com o digital.

IMG_1800

Esse pequeno projeto foi pensado para tod@s, mulheres e homens, adolescentes e adultos. Feito para repensarmos a relação com os nossos corpos e para não esquecermos de nos observar, nos cuidar, e nos desfrutar. Bom, nada de novo. Porém ainda é necessário continuar voltando às mesmas discussões.

IMG_1787
No mais,  o que me motivou foram vários momentos deste último ano. O contato com vários ambientes e pessoas novas, e particularmente com uma querida amiga que compartilho diversas afinidades que foram aparecendo com o tempo, especialmente sobre os temas menstruação, corpo, sexualidade, feminismo, tricot/artesanato, também me inspirou nesse projetinho. A Lis, que é estudante aqui em Rennes em artes plásticas também trabalha sobre o tema menstruação e nosso encontro foi uma dessas boas coincidências que rolam quando se mora em outro país.