sobre menstruação e contracepção

As dúvidas em relação a contracepção percorrem boa parte da nossa vida, e o acesso à informação durante nossa adolescência, e mesmo na vida adulta, ainda é limitado. Por isso nunca é tarde ou demais falar sobre esse tema, e mesmo relatar nossas experiências, compartilhar nossas descobertas e dúvidas. Bom, é isso que venho fazer aqui neste momento.

 

A primeira menstruação e o início da adolescência são os primeiros eventos que levam as meninas na nossa sociedade a pensarem sobre o primeiro método contraceptivo. As razões podem ser várias, mas as mais frequentes são excesso de espinhas, efeitos da TPM, cólicas fortes, menstruação desregulada, início da vida sexual, cisto no ovário, etc. No meu caso menstruei aos 11, e aos 16 anos o motivo para tomar a pílula anticoncepcional foi o início de namoro. Em agosto de 2013, passados 7 anos, com 24 anos e em um relacionamento de 8 anos, eu decidi parar. Nesta época eu já estava casada, mas a finalidade não foi a de engravidar. Eu decidi dar um tempo com os medicamentos e perceber as respostas do meu corpo. É claro que estar em um relacionamento sólido me deu mais segurança para me aventurar neste experimento sem que seus riscos abalassem a minha nem a nossa vida. Além do mais, eu estava na França, especificamente na região da Bretagne, onde o suporte a questão do aborto funciona muito bem.

contraceptivos-comuns

Entre os métodos de contracepção mais comuns, a camisinha nunca esteve muito presente em nossa relação, por diversas razões como ser desconfortável, cortar o clima, ser anti-ecológico, etc. Fizemos os exames de DST logo no início da relação e acabamos abandonando a camisinha de vez. Assim, por ser mais acessível, a pílula acabou sendo o nosso principal método contraceptivo. Ela nunca falhou. Mas também não tenho muitas lembrança das mudanças que ela causou no meu corpo. Lembro de menstruar por, em média, 10 dias e após a pílula os dias reduzirem para 5. Mesmo não sentindo muitos efeitos colaterais, nunca me senti totalmente confortável ingerindo esse medicamento que passou a controlar totalmente meu ciclo menstrual, e com o passar dos anos cada vez mais as dúvidas vinham a minha cabeça, e me perguntava “até quando vou continuar dependendo disso?”, considerando que eu ainda teria mais uns 20 anos de ciclos menstruais pela frente.

A mulher em segundo plano

Bom, sabemos que o direito e acesso aos métodos contraceptivos, e frequentemente à pílula, são há muito tempo reivindicações de grupos feministas, fazendo também parte das políticas de esquerda que defendem a liberdade sexual da mulher. O fato é que eu também defendo essa liberdade, mas então por que estou tentando descartar um direito que me foi conquistado?

Segundo Diniz, no Brasil da década de 80 a discussão sobre contracepção se dividia entre os natalistas e os antinatalistas. Os primeiros eram contrários à toda oferta de contraceptivos por não corresponder aos interesses nacionais e à fé cristã. Os últimos, preocupados com os efeitos do crescimento populacional no desenvolvimento econômico, defendiam a regulação da fecundidade e acabavam depositando na mulher essa responsabilidade, sem considerar os riscos para a sua saúde e seu bem-estar.

Como abordado pela mesma autora, a falta de reflexão sobre a prática médica convencional nos leva a ignorar o papel dos serviços de saúde na subordinação das mulheres. A ideia de planejamento familiar nos faz crer que a função da sexualidade da mulher é constituir família, não reconhecendo o sentido amplo da busca por contracepção, como cuidar da sexualidade tendo em vista o prazer. Como consequência, temos serviços de saúde que não oferecem auxílio adequado às mulheres que não possuem um parceiro fixo, falhando na oferta de métodos e aconselhamentos sobre prevenção de DSTs, por exemplo. Aliás, foi apenas em 1997 que o Brasil começou a comercializar preservativos femininos, e ainda assim, com preços bem elevados. Mais de uma década depois, ainda vemos uma grande dificuldade de acesso a esses preservativos, mesmo sabendo que ele é muito mais eficaz que o preservativo masculino.

Há algo em comum entre as situações discutidas acima. A mulher pouco aparece como agente capaz de decidir sobre os cuidados e as funções do seu próprio corpo. O tabu do corpo da mulher persiste e a afasta de sua autonomia. Por vezes a igreja, por outras o estado. E nossas famílias e os próprios médicos acabam sendo cúmplices do controle sobre nossos corpos. É impossível não pensar no grande papel de manipulação da industria, do capitalismo. O direito a contracepção foi sim uma grande conquista feminista, mas parece que parou aí. Aonde ficou nossa saúde nessa história? Acabamos nos deixando levar pela sociedade de consumo. A mulher independente se tornou aquela que tem poder de aquisição. E a liberdade se tornou a praticidade de não precisar menstruar, de não exalar cheiros naturais, não precisar ter contato com o próprio sangue, de esquecer que temos um ciclo menstrual, e depois poder reativá-lo quando desejarmos.

“if you think you are emancipated, you might consider the idea of tasting your own menstrual blood – if it makes you sick, you’ve a long way to go, baby” Germaine Greer

 

À procura do método

Bom, essas foram algumas das razões pelas quais decidi parar e repensar sobre o que tenho feito com meu corpo. Razões essas que ainda me fazem questionar se me conheço o suficiente, se estou cuidando de mim, se existem outras soluções para mim e para as outras mulheres. Quando pensamos em métodos de contracepção sem uso de medicamentos, geralmente somos instruídos às seguintes opções, começando pelas que oferecem menos riscos de gravidez: 

  • preservativo feminino ou masculino (sendo o único método confiável contra DSTs)
  • o diafragma (um dos que mais oferece autonomia à mulher, podendo ainda proteger contra algumas DSTs)
  • as práticas sexuais não penetrativas 
  • o coito interrompido 
o primeiro teste

Pensando sobre qual método eu iria optar, decidi testar alguns. Eles deveriam estar ao meu alcance e era importante para mim ter opções mais naturais. Foi nessa que o primeiro escolhido foi o tal do “coito interrompido”, ou ejaculação fora da vagina. A eficácia desse método pode depender de alguns atributos, como o controle do parceiro sobre a própria ejaculação. 

Mas em primeiro lugar vou comentar sobre como minha vida mudou desde que parei com a pílula. Os efeitos podem parecer negativos para a maioria das mulheres. Mas na realidade eram os efeitos que eu esperava. São as respostas naturais de um corpo se libertando.

Em relação ao meu corpo, houve um grande aumento de espinhas, principalmente nas costas e peito. Foi mais intenso nos primeiros meses e depois foi reduzindo. Meus seios perderam um pouco de volume. Em alguns meses tive uma sensação de que o corpo inteiro estaria menos inchado. Voltei também a sentir cólicas nos dias de menstruação. Além disso, no início meu ciclo desregulou totalmente e cheguei a achar que estava grávida por ficar uns dois meses sem menstruar. Porém, depois de alguns meses meu ciclo foi se regulando e descobri que meu ciclo tem em média 45 dias, e não 28 dias como a pílula me forçava a ter. Além do mais, a menstruação era sempre interrompida para recomeçar um novo ciclo.

Em relação a rotina e preocupações, é prático não precisar pensar em comprar ou conseguir as pílulas anticoncepcionais, nem lembrar de toma-las todos os dias. Na realidade o método atual transfere a responsabilidade ao parceiro homem, pois é ele quem tem que ser capaz de controlar a ejaculação e saber a hora certa de retirar. Além disso, após a primeira ejaculação, o ideal é não penetrar sem preservativo novamente no mesmo dia, para eficácia do método.

Bom, tem um ano desde começamos a aplicar o método que até o momento tem funcionado bem. Ele tem fama de não ser confiável, e mesmo eu querendo, não posso recomendá-lo, pois a minha experiência não é o bastante. Porém, mesmo estando contente em ter parado com as pílulas e de confirmar que esse método é possível com a gente, não pretendo continuar (apenas) com ele. Posso levantar como pontos negativos o fato de padronizar o fim da transa, e ainda de não permitir um conhecimento maior da mulher sobre seu corpo, o que faz com que permaneça um sentimento de insegurança sobre possíveis gravidez.

Mas não vou parar por aí, o próximo passo é testar um outro método, ainda diferente dos que citei acima. Ainda não posso expor o que será, então vai ficar para um próximo post. E pra quem tiver lido o texto até aqui, gostaria de saber a sua opinião sobre o tema. Quem tiver outras experiências, fiquem livres pra comentar.

Referências

DINIZ, Simone G. – Cuidando do prazer: do planejamento familiar à contracepção, e da autonomia das mulheres à responsabilidade compartilhada. 

El dedo en la llaga – El estigma histórico de la menstruación

 

vagina pulsante

movimenta. pulsa. transforma.
Nossas vaginas estão cheias de vida.

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Vagina em feltro costurada a mão (jan/2014)
[o sangue]

buceta-sangre

[o gozo]

gif-gozo

viva a vagina pulsante


Penso que o feltro é um material frequentemente utilizado no artesanato pra produzir coisas fofas. Já a vagina, de forma geral, é vista como algo sujo (tanto no sentido menstrual, como sexual). Desta forma, produzir uma vagina em feltro é colocar dois elementos com sentidos distantes, e mesmo contrários, num mesmo objeto. A intenção não é de inverter os conceitos, mas observar-los em uma outra perspectiva. A aplicação em gifs também faz a combinação do artesanal com o digital.

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Esse pequeno projeto foi pensado para tod@s, mulheres e homens, adolescentes e adultos. Feito para repensarmos a relação com os nossos corpos e para não esquecermos de nos observar, nos cuidar, e nos desfrutar. Bom, nada de novo. Porém ainda é necessário continuar voltando às mesmas discussões.

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No mais,  o que me motivou foram vários momentos deste último ano. O contato com vários ambientes e pessoas novas, e particularmente com uma querida amiga que compartilho diversas afinidades que foram aparecendo com o tempo, especialmente sobre os temas menstruação, corpo, sexualidade, feminismo, tricot/artesanato, também me inspirou nesse projetinho. A Lis, que é estudante aqui em Rennes em artes plásticas também trabalha sobre o tema menstruação e nosso encontro foi uma dessas boas coincidências que rolam quando se mora em outro país.