sapatinhos surpresa

É muito comum dar importância àquilo que não está mais ao alcance, coisas do passado, pessoas que se foram. Quando as coisas ainda fazem parte do presente, é mais conveniente deixar o interesse para outro momento. Uma hora mais apropriada e que talvez nunca chegue.

Sempre admirei meu avô, pelo seu jeito simples de viver a vida, pela criatividade de criar objetos com o que estava a sua volta e para fazer consertos caracterizados pela gambiarra. Tinha grande consideração pelo seu modo de pensar sobre o mundo e sua paixão por conhecimento, pois mesmo tendo completado apenas a segunda série do fundamental no ensino formal, ele nunca parou de estudar. Estava sempre lendo livros e entendia de todos os assuntos. Era também apreciador da música, pricipalmente de velhos sambas como o de Noel Rosa, e teve pela década de 40, um conjunto musical com o qual tocava e cantava em diversos bares nas noites de São Paulo. Porém, o que talvez mais me instigou foi sua habilidade artesanal. Sua profissão era sapateiro, mas já havia se aposentado quando eu nasci. No entanto, no tempo em que convivi com ele sempre o via trabalhando com madeira, desenhando nela e talhando para fazer quadrilhos. Tudo o que ele fazia era com paixão. Acredito que por tudo isso que hoje o artesanato me atrai tanto.

Sei muitas coisas sobre ele, mas não profundamente. Sempre achei que teria aquele momento apropriado para conversar com ele. Há alguns meses eu perdi todas as oportunidades e nesse meio tempo minha família tem vasculhado as coisas dele para reorganizar a casa. Foi numas dessas idas a sua mini oficina que escontrei uma caixinha com sapatinhos. Ele tinha o costume de fazer miniaturas, como cadeirinhas e escadinhas de madeira e animaizinhos com o miolo de pão. Porém, não conhecia seus sapatinhos, havia visto nos ultimos meses um deles no criado mudo de seu quarto. Foi uma surpresa encontrar o restante na caixinha. Mesmo não tendo conhecido seu trabalho de sapateiro, agora pude conhecer a versão mini do que seria os sapatos que ele fazia. Apesar de não ter acompanhado o seu trabalho de perto e de não ter trocado mais ideias com ele, me sinto satisfeita de encontrar coisas como estas e ter boas lembranças dele.

alguns modelos não foram acabados. para fazer a modelagem ele usava esses moldes feito em madeira.

para finalizar, uma foto dos meus avós.